Mais aventura, menos amor

Foto: We Heart It
Cíntia deu um sorriso amarelo logo cedo para o porteiro. Era a quarta ou quinta vez que ela descia as escadas de um apartamento que sequer podia frequentar. Sr. Mário sabia que ela estava errada e com quem ela andava se encontrando, mas limitava-se em sorrir e acenar com a cabeça sempre que a via amanhecendo por lá. Bairros residenciais com poucos moradores tem dessas coisas. O apartamento singelo naquele bairro burguês não tinha muito luxo e nem chamava muita atenção, mas Cíntia temia que um dia a máscara caísse.

Eram 7 da manhã e ela com certeza encontraria com Fernando no trabalho. Depois da longa noite que tiveram, acordar às pressas, recolher as roupas e sair correndo não era bem o tipo de relacionamento que ela buscava no auge dos seus 30 anos, mas era o que a mantinha distraída. Cíntia sempre foi muito mais aventura que amor e todo mundo sabia disso – até o Sr. Mário que balançava a cabeça negativamente sempre que ela virava as costas. Ele sabia que após 5 ou 6 minutos, a esposa de Fernando subiria as escadas e ele teria que acenar novamente como quem não sabia de nada.

Apesar de Sr. Mário não demonstrar esse descontentamento todo para Fernando, Fernando também sabia o que estava acontecendo: ele sairia atrasado, daria um beijo em sua esposa no corredor mesmo e encontraria com Cíntia no hall do escritório, onde trocaria olhares sem sequer deixar transparecer o que acontecera na noite anterior.

É que Cíntia também era muito mais descrição que especulação. Odiava achar que os colegas sabiam o que acontecia e limitava-se em acreditar que Sr. Mário era o único que sabia do segredo. Por mais que ela falasse que não se envolveria novamente, por mais que sua consciência pesasse sempre que passava por aquele corredor, por mais que tivesse vontade de ir embora no meio da noite. Isso era tudo que Cíntia mais gostava: aventura.

Por dois ou três meses isso se repetiu. Os encontros repentinos e nada programados se tornaram jantares certos de toda terça-feira – o dia em que a esposa sempre dormia fora. Por todo esse tempo, Cíntia se questionou se deveria mesmo prosseguir com esta história até que, uma mensagem no chat do Instagram a fez decidir. “Por que tem uma foto do meu marido no seu feed?”, leu.

Depois de um tempo, não havia mais cuidado. Não havia mais disfarce. Todo mundo sabia. Cíntia pensou se deveria responder. O que responder. Por que responder. Respirou fundo, discou um número no telefone do escritório e, ao ouvir a voz do outro lado da linha meio embrigada pela emoção do momento, se limitou em dizer: “ela sabe!”.

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