Última partida - parte II

janeiro 10, 2013


Ela

Eu sei que foi cruel. Não sei como deixamos tudo chegar a esse ponto, mas entenda que ele nunca te quis ver sofrer. Ele te amou, minha querida. Mas por acaso do destino, nós nos cruzamos no shopping justo no dia em que ele comprava o seu presente. Nunca foi minha intenção destruir nada do que vocês estavam vivendo, mas ele me garantiu que tudo já estava destruído o suficiente. Eu só dei forças para que ele abandonasse uma história que o fazia infeliz.

Eu não te devo desculpas.

Naquela tarde de outono, eu deixei que ele te levasse à rodoviária e confesso: estive em meu carro, estacionado logo ao lado do dele, durante todo o tempo. Eu merecia saber quem era, afinal, a garota que roubou sorrisos e suspiros durante todo o tempo em que eu ainda não estive aqui. Você é muito mais bonita do que pensei e estava muito mais assustada do que eu imaginei. Fiquei pensando em como teria sido dormir pela última vez naquele apartamento que você ajudou a escolher e na pior das hipóteses, sozinha. Eu sei que sabe que ele dormiu comigo.

Naquela noite, ele estava decidido. Te contaria afinal o porque da mudança repentina e revelaria a verdade: eu. Sei que houve choro, dor, uns palavrões sem rumo e ele te deixou sozinha ali. Quando chegou a minha casa, senti que ele havia feito o que não queria fazer, mas sim o que era necessário. Ele também estava aos prantos, caso não saiba. Me contou detalhes da sua reação e se perguntava a todo instante “por que?”. Confesso que me senti ofendida, mas sabia que eu não era a culpada. Eu o amo e ele entende isso, mas era notório sua dúvida por saber que uma mulher tão importante para ele deveria ser deixada.

Você deve estar se perguntando por onde anda minha compaixão feminina e eu acho que nunca tive. Me doeu saber que sofria, mas eu não poderia fazer nada mais. Sei que levou embora tudo que um dia você o presenteou e eu agradeço por isso. Me poupou o trabalho de perguntar e jogar tudo aquilo fora. Por agora, só desejo que você não seja um fantasma na minha vida e que me deixe dormir em paz. Tenho perdido o sono, caso também não saiba.

Depois que ele saiu de minha casa, na manhã seguinte, eu hesitei um pouco, mas sabia que o pior já tinha sido feito. Me deu uma dose de remorso pensar que em 80% das vezes que você ligava, era eu que estava por perto. Você dizia que estava com saudades e ele respondia “eu também” olhando em meus olhos. E o pior: eu sentia que ele ainda tinha dúvidas.

Quero que saiba que me doía deitar ao lado dele todos os dias enquanto era para você que ele dizia “eu te amo”. Nunca entendi porque, afinal, ele pedia tanta paciência, mas aprendi que era porque ele precisava de tempo para se decidir. Fica em mim a sensação de que ele me escolheu pela proximidade: eu estou a 20 minutos dele, enquanto você está a alguns estados de distância. Você sabe: ele é muito mais carente do que apaixonado. É muito mais alguém – qualquer alguém – do que eu ou você.

Mas, sabe, você é do tipo de mulher que eu ia adorar dividir uma tarde de compras e conversar um pouco mais sobre nosso ponto mais fraco. Não sou cruel, sou mulher como você. Me liga qualquer dia desses e comenta sobre os defeitos que ele carrega consigo. Me diz do que ele gosta, seu prato favorito e o que ele odeia fazer aos sábados a noite. Me poupa o trabalho de descobrir. Dividimos tanto da mesma coisa ao mesmo tempo. Me conta uns segredos também. 
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